Mais importante que ser reconhecido e ter notoriedade é ter notabilidade, ser
credível e respeitável. Ou seja, mais do que terem muita informação sobre nós, é importante que tenham uma boa opinião sobre nós.
Actualmente quando se pergunta a uma criança o que quer ser quando for grande, obtemos, geralmente, a resposta “quero ser famoso(a)!”. Com efeito, para quê estudar e trabalhar se quem tem mais sucesso é simplesmente quem é mais famoso(a). Este é um efeito secundário de termos uma comunicação livre, independente e auto-determinada numa era pautada pela imagem. Os media são sobretudo os meios pelos quais nos podemos tornar publicamente conhecidos e reconhecidos, alcançar notoriedade, ser famosos ou, mais do que isso, ser notáveis e ter uma boa reputação.
Na minha profissão habituei-me desde muito cedo à distinção clássica entre informação e opinião, entre o que é ser notório e conhecido e o que é ser notável/credível e ter boa reputação.
Os media vão sofrendo mutações profundas, como acontece hoje, com a perda de influência dos meios de comunicação de massa e a valorização da Internet; mas a distinção entre a informação e a opinião, entre ser conhecido e ser tido em boa conta, permanece.
Acredito que mais importante que ser reconhecido publicamente e ter notoriedade é ter notabilidade, ser notável por algum motivo, ser credível e respeitável. Ter uma boa reputação! Ou seja, mais do que terem muita informação sobre nós (o que, sem dúvida, ajuda a sermos famosos/conhecidos) é importante que tenham uma boa opinião sobre nós… Não compensa ser famoso a qualquer custo, mas compensa ter sempre uma boa reputação. Recordemos a boa reputação que tinham os responsáveis pela gestão financeira que nos levou à crise que atravessamos, antes de a comunicação social nos dar a conhecer a verdade dos factos. “Que falta de ética!”, podemos agora exclamar. No entanto, não devemos esquecer que todos nós participámos de alguma forma – com o nosso estilo de vida, os nossos hábitos de consumo, expectativas e valores sociais – no que conduziu ao aumento progressivo da especulação financeira.
Certamente já todos ouviram uma figura pública afirmar «não me importa o que dizem de mim, interessa é que falem de mim…!». Claramente para estas pessoas não importa se têm ou não boa reputação, mas sim se têm visibilidade, se são conhecidos, enfim… famosos!
Mas podemos ter uma boa reputação sem ética? Para que quem nos avalia tenha uma boa opinião sobre nós, tem de partilhar connosco os mesmos padrões éticos. Tal como na comunicação, tem de haver um código em comum. No entanto, adoptar um determinado código ético é apenas o princípio. Para ter uma boa reputação é necessário agir em conformidade com esse código e saber comunicá-lo, para que todos tenham efectivo conhecimento de que não apenas defendemos determinados valores éticos, mas também os aplicamos na nossa conduta, pessoal e profissional.
Vivemos um défice de confiança. As instituições não confiam umas nas outras, o cidadão não confia nas instituições e a credibilidade está comprometida, com consequências preocupantes. É urgente que se adopte um novo modelo de valores, mas também é necessária muita coragem.
Esperemos que a ética esteja – efectivamente – de volta à nossa sociedade em todos os seus domínios. Porque se é certo que todos temos direitos, também é certo que todos temos deveres: cidadãos, empresários, políticos!
Carla Guedes, directora-geral da Reputation.
Lido em Jornal de Economia.
Alguém foi capaz de ler este texto e não pensar, um único momento, na sua associação ao xadrez?
Pois é, se retirarem a palavra empresa e colocarem a palavra associações (e Federação) então a situação é diferente.
Os dirigentes passam, as instituições ficam, é verdade, mas uma “má imagem” leva muito tempo a recuperar. Mas, certos dirigentes querem ser (re)conhecidos pelos piores motivos. O pior é que as instituições ficam com a sua má fama.