Ala de Rei

a opinião e a crítica sobre a legalidade e a justiça no xadrez e no desporto em geral.

Apólogos de um método no xadrez ou a arte de bem cultivar a memória (I)

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Nunca se deve dizer “eu não tenho memória”, porque isso não é correcto. Deve dizer-se “eu não cultivei a minha memória”, porque existe entre estas duas afirmações lugar para a falta de vontade que faz com que nos descuidemos de justificar o nosso espírito com o auxílio do estudo e da atenção.

Havia dois homens que tinham cada um construído a sua casa no meio de um grande jardim plantado com flores e árvores. Uma cerca era o muro verdejante que servia ambos, como limite das suas propriedades.

Ora, um dia, um desses homens disse ao seu vizinho:

- Como se compreende que o seu jardim seja povoado por bandos de pássaros cujo gorjeio é um verdadeiro prazer, enquanto que os meus canteiros permanecem vazios e silenciosos? Os nossos jardins têm as mesmas flores e as resinas das nossas árvores são exactamente iguais. O que atrai para os seus canteiros esses visitados alados que fogem dos meus?

O outro homem sorriu e respondeu:

- Eu.

- Como? Quer insinuar que tem algum poder mágico?

- Não, mas os pássaros sabem que à frente da minha porta encontrarão todos os dias os grãos que gostam e nunca deixo de tocar uma melodia para os atrair.

Os factos que a memória quer reproduzir são semelhantes aos pássaros que acorrem ao primeiro chamamento desde que se tenha o hábito de os chamar frequentemente.

A indiferença, no entanto, torna-os mais tardios e menos dóceis e se passarmos muitos dias sem solicitar a sua visita e sem fazer esforços para lhes proporcionar um bom acolhimento, é em vão que levaremos a flauta aos lábios; eles estarão muito distantes para ouvir e não deixarão facilmente o jardim daquele que sabe tratá-los bem por uma visita que só se repetirá com intervalos muito longos.

É, pois, apenas através de um cultivo diário que conseguiremos adquirir a presença permanente da memória. E depois usufruí-la.

Este texto foi inspirado no pensamento de Sankara, filósofo indiano do séc. XII.

Moral da história para os profanos

Os amigos da sabedoria chamam a esta memória “experiência”. É ela que nos permitirá evitarmos as emboscadas do destino e nos fornecerá os meios de escaparmos às redes em que caiem aqueles que se entregaram ao esquecimento.

Em todo o caso, esse será o meio infalível de evitar as reincidências no erro, visto que q relação entre as causas desse erro exercerá sobre nós uma influência moralizadora.

Moral da história para os crentes (xadrezistas)

Um facto isolado deixa apenas traços fugitivos, mas o conjunto das circunstâncias que o cercaram, ajuda-nos a grava-lo no nosso espírito ou, no mínimo, pela sucessão de ideias, contribui para torná-lo sempre vivo.

Primeiro de uma série de 12 apólogos para cultivar a memória.

Sem método, o estudo do xadrez é inglório!

35 estudos de Nikolai Kralin, ilustrados por Paul Klee [apresentados por Tantale]

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Nikolai Kralin [1/2, Vserossiski Ty, 1962] sobre um quadro de Paul Klee, 1915 "Dois Camelos e um burro" ("Two Camels and a donkey")

35 estudos de Nikolai Kralin, ilustrados por Paul Klee, apresentados por Tantale em www.mrw.com.

O jogo de xadrez e a investigação de padrões

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O jogo de xadrez, tem sido objecto de muitos estudos académicos das mais diversas disciplinas, com particular destaque para a inteligência artificial, psicopedagogia, psicologia cognitiva, neurociências, entre outras.

Actualmente, uma grande parte dos artigos destas investigações já está acessível , através da internet, e, na sua esmagadora maioria através de resumos. Mas, estudos e investigações em Portugal não abundam e publicados ainda menos, o que nos leva a supor que ou não se fazem ou não interesse na sua divulgação.

Por isso, quando aparece um destes raros estudos é sempre razão para saudar e divulgar. E o caso presente é dos mais importantes, porquanto diz respeito à importância que o xadrez revela no estudo e, em particular, na disciplina da matemática. Sobressai, de imediato, na leitura deste trabalho que os alunos, jogadores de xadrez, são melhores alunos, não porque tenham melhores notas, o seu corolário, mas, porque estão em melhores condições para as tirar.

O jogo de xadrez e a identificação de padrões, é um documento (paper) de Dores Ferreira e Pedro Palhares, dois investigadores do LIBEC/CIFPEC Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho . Neste texto os autores exploram a ligação entre a prática do xadrez e o desempenho escolar a matemática.
Segundo os autores, no Resumo,
Neste artigo apresentamos o contexto e os resultados de um estudo com crianças do 3º ao 6º ano do ensino básico sobre a relação entre o xadrez e a resolução de problemas envolvendo padrões numéricos e geométricos. Como resultado principal do estudo verificamos a existência de uma relação entre a força de jogo e a capacidade de resolver problemas com padrões. Incluímos na parte inicial uma análise do xadrez enquanto contexto para problemas de matemética elementar, podendo assim inferir-se a riqueza em termos históricos.

Pela importância, permito-me transcrever as Conclusões que os autores retiraram deste estudo
Os resultados deste estudo, embora não nos permitam extrapolar para a população dos alunos do Ensino Básico, não deixam de ser pertinentes para a população estudada. Desta forma pensamos que seria desejável um maior investimento dos professores no ensino sistemático do xadrez, procurando que os alunos sejam bons jogadores de xadrez.
(…)

Uma vez que o teste revelou que, inversamente à mioria dos alunos, os xadrezistas resolvem melhor padrões numéricos do que padrões geométricos, torna-se emergente procurar descobrir as razões onde assentam essas diferenças. Porque é que os bons jogadores de xadrez identificam melhor os padrões numéricos? Porque é que estes jogadores reagem de forma inversa aos restantes alunos? A resposta a esta e outras questões que eventualmente se possam colocar poderão ser objecto de futuras investigações.

Torna-se fundamental a investigação através de estudo de caso que possam analisar de que forma o ensino do xadrez pode contribuir para a resolução de problemas, não só na área da Matemática, mas extensível a outras áreas do saber, atendendo a que a resolução de problemas é apontada como uma competência transversal a desenvolver em todos os alunos.

Uma vez que o xadrez não é o único jogo de estratégia a ser referido no programa, será que se obteriam os mesmos resultados para os outros jogos referidos, nomeadamente a batalha naval, as damas e o mastermind? Ficamos curiosos acerca da reposta. Esperamos que outros investigadores também o fiquem, a ponto de intentarem investigações nesse sentido.
Uma versão deste texto foi publicada no Boletim da SPM, 56.