Nunca se deve dizer “eu não tenho memória”, porque isso não é correcto. Deve dizer-se “eu não cultivei a minha memória”, porque existe entre estas duas afirmações lugar para a falta de vontade que faz com que nos descuidemos de justificar o nosso espírito com o auxílio do estudo e da atenção.
Havia dois homens que tinham cada um construído a sua casa no meio de um grande jardim plantado com flores e árvores. Uma cerca era o muro verdejante que servia ambos, como limite das suas propriedades.
Ora, um dia, um desses homens disse ao seu vizinho:
- Como se compreende que o seu jardim seja povoado por bandos de pássaros cujo gorjeio é um verdadeiro prazer, enquanto que os meus canteiros permanecem vazios e silenciosos? Os nossos jardins têm as mesmas flores e as resinas das nossas árvores são exactamente iguais. O que atrai para os seus canteiros esses visitados alados que fogem dos meus?
O outro homem sorriu e respondeu:
- Eu.
- Como? Quer insinuar que tem algum poder mágico?
- Não, mas os pássaros sabem que à frente da minha porta encontrarão todos os dias os grãos que gostam e nunca deixo de tocar uma melodia para os atrair.
Os factos que a memória quer reproduzir são semelhantes aos pássaros que acorrem ao primeiro chamamento desde que se tenha o hábito de os chamar frequentemente.
A indiferença, no entanto, torna-os mais tardios e menos dóceis e se passarmos muitos dias sem solicitar a sua visita e sem fazer esforços para lhes proporcionar um bom acolhimento, é em vão que levaremos a flauta aos lábios; eles estarão muito distantes para ouvir e não deixarão facilmente o jardim daquele que sabe tratá-los bem por uma visita que só se repetirá com intervalos muito longos.
É, pois, apenas através de um cultivo diário que conseguiremos adquirir a presença permanente da memória. E depois usufruí-la.
Este texto foi inspirado no pensamento de Sankara, filósofo indiano do séc. XII.
Moral da história para os profanos
Os amigos da sabedoria chamam a esta memória “experiência”. É ela que nos permitirá evitarmos as emboscadas do destino e nos fornecerá os meios de escaparmos às redes em que caiem aqueles que se entregaram ao esquecimento.
Em todo o caso, esse será o meio infalível de evitar as reincidências no erro, visto que q relação entre as causas desse erro exercerá sobre nós uma influência moralizadora.
Moral da história para os crentes (xadrezistas)
Um facto isolado deixa apenas traços fugitivos, mas o conjunto das circunstâncias que o cercaram, ajuda-nos a grava-lo no nosso espírito ou, no mínimo, pela sucessão de ideias, contribui para torná-lo sempre vivo.
Primeiro de uma série de 12 apólogos para cultivar a memória.
Sem método, o estudo do xadrez é inglório!
![Nikolai Kralin [1/2, Vserossiski Ty, 1962] sobre um quadro de Paul Klee, 1915 "Dois Camelos e um burro" ("Two Camels and a donkey")](http://www.jmrw.com/Chess/Kralin/Images/00.jpg)




