Já conhecia Carlos Oliveira Dias há alguns anos, no entanto, apenas nos cruzámos no ano passado quando frequentei um Curso de Arbitragem da AXL. Mas, foi na fase preliminar do Nacional Individual Absoluto deste ano que tive a oportunidade de aprofundar o conhecimento. E ficou uma promessa para uma entrevista ao homem – o jogador, o árbitro e o dirigente, actualmente presidente da Associação de Xadrez de Leiria – que seria realizada durante a fase final do Nacional.
E assim aconteceu, antes da última sessão, na própria mesa em que se discutia o Campeonato, Carlos Dias concedia a prometida entrevista ao blogue Ala de Rei, em exclusivo. Seria uma “caixa” se fosse jornalista, assim, foi uma amável conversa de alguém que leva mais de 30 anos da sua vida dedicada ao xadrez, à arbitragem, aos jovens, e… não esqueçamos, a Portugal. Um exemplo, nos dias que correm. Por isso, é que o Ala de Rei decidiu inaugurar este ciclo de entrevistas com um convidado com “obra feita” no xadrez português e uma opinião respeitada e livre que conta.
A entrevista foi oportuna pelos temas levantados, mas, esclarecedora sobre o rumo que o xadrez tem levado e as rupturas que são necessárias para fazer alterar a situação actual.
Obrigado Carlos, pela tua disponibilidade para esta entrevista. Estamos a gravar no dia 9 de Setembro de 2007, dia da última sessão do Nacional Absoluto de 2007.
Qual é a situação actual do xadrez a nível associativo?A nível distrital é o eterno problema das associações que se debatem com problemas financeiros, que se debatem com problemas estruturais, sabemos que por vezes não é fácil obter verbas, não é fácil obter subsídios e patrocínios. A verba que a Federação dispõe actualmente não é compatível com a verba de outras federações, não permite à Federação distribuir grandes verbas pelas Associações, e, como disse, devido à grande dificuldade que há em obter patrocínios para esta modalidade é difícil trabalhar nas Associações. Eu, como Presidente da Associação de Xadrez de Leiria, tenho imensas dificuldades em fazer um plano anual com base naquilo que eu penso que deve ser um Plano Anual para uma Associação. Porque faltam-me verbas e porque não tenho onde ir buscá-las.
É evidente que todos nós é que temos que lutar para criar meios para obter esses patrocínios e subsídios e penso que uma forma de se caminhar nesse sentido é acima de tudo credibilizar a modalidade, credibilizar o xadrez, credibilizar os agentes desportivos, as Associações, por forma a que se vá pedir patrocínios de uma forma que permita que as pessoas encarem o xadrez como uma modalidade a ser apoiada. As questiúnculas que têm acontecido nos últimos tempos de forma alguma contribuem para que a imagem do xadrez seja de uma forma limpa e que seja de forma a que possamos pedir subsídios para uma modalidade que só tem tido problemas.
Mas o xadrez tem futuro sem os apoios estatais do IDP?
Eu penso que não… Eu penso que não. Porque… é muito difícil arranjar apoios para…
… mas porquê? Porque o xadrez “não rende”, como nas outras modalidades?Porque… o xadrez não rende como nas outras modalidades, exactamente. O xadrez não é mediático.
Mas há outras modalidades que conseguiram dar a volta. Há muito pouco tempo atrás, estavam numa situação muito semelhante ao xadrez…
… como, por exemplo?
… há um exemplo que é o ténis, em que fizeram grandes mobilizações na comunicação social. Há uma predisposição desta, é verdade, mas, o que é facto, é que há um determinado “trabalho de casa” que não é feito. Por isso, é que eu faço esta pergunta…
… mas, Francisco Vieira, mas, o ténis… o ténis é uma modalidade “vendável”. Mas, precisamente para isso temos que criar mecanismos para tornar a modalidade “vendável”.
E porque é que não se criam?
Porque não temos uma mentalidade própria para isso…
Porque não criamos essa mentalidade?
Porque ninguém ainda se pôs a pensar nisso. Temos países como a Espanha, temos países como a França, em que o xadrez é rentável. E o xadrez é comercialmente rentável.
Então, é porque o exemplo do ténis funciona.
… funciona numa dimensão mais pequena. O ténis é uma modalidade que chega à televisão com muita facilidade, que envolve muitos, muitos milhões, que tem uma estrutura em Portugal, que é a estrutura do João Lagos, que é muito superior à da maior parte das federações desportivas deste país, que envolve milhões e o xadrez não é por aí que tem que entrar. Temos que dar passos pequeninos, passos curtos, temos que rentabilizar o xadrez, mas de uma forma segura, não dar passos maiores do que a perna e tentar encontrar uma forma de chamar as pessoas ao xadrez, o que não é fácil. E temos a prova. Estamos a disputar uma fase final do Campeonato Nacional – estamos a fazer esta entrevista, sentados na mesa onde os jogadores jogam – e, eu pergunto ao Vieira quantas pessoas é que cá vieram assistir, durante a semana? Eu contei 10. Diferentes, eu contei 10 espectadores, 2 deles, polacos, que ontem passaram por aqui, por estarem hospedados cá [no Hotel A.S. onde se disputou a fase final do Nacional Absoluto], para assistir ao jogo de futebol Portugal-Polónia. 8 portugueses que vieram aqui ver este Campeonato. Não se consegue fazer… embora as condições sejam muito boas neste hotel… há outras provas que podiam ser levadas para sítios com mais visibilidade. Tem que se encontrar uma forma.
O xadrez tinha que se sentar a uma mesa, as pessoas do xadrez têm que se sentar a uma mesa e tentar encontrar uma forma de tornar o xadrez visível e apresentável. Tornar a modalidade apetecível que permita com que as entidades consigam apoios e subsídios e não é na forma actual que se vai conseguir isso. Nos últimos anos, temos tido muitos problemas no xadrez, tem-se discutido muita coisa que não tem interesse nenhum para a modalidade e nunca ninguém, tirando em 2001 ou 2002, salvo erro, num Congresso que se fez em S. João da Madeira, que penso que foi útil, ainda ninguém fez um Congresso para debater o xadrez pelas pessoas do xadrez…
Aquele Congresso ou equivalente a Congresso, que houve em Évora foi um flop, não foi?
Foi um grande flop. Voltou-se a discutir coisas que não têm interesse nenhum para o xadrez.
Então, porque é que as pessoas não discutem?
Porque as pessoas, provavelmente, estão muito desinteressadas disto.
Porque é que estão desinteressadas? Isto leva-me a uma pergunta que é a seguinte…
… o problema é que não tem havido…
… O que é que é preciso para que o xadrez tenha uma determinada visibilidade que não consegue ter, que não consegue mobilizar nem os seus próprios jogadores, e, em Portugal, continua-se a viver como se fosse há 50 anos ou mais, em que não há rigorosamente alteração alguma…
… não, há mais, mas, eu respondo-te com uma pergunta. Quantos programas, existiram em Portugal, de Xadrez, de Desenvolvimento do Xadrez, apoiados pelas Autarquias?
Eu conheci mais de 20 e nenhum está a funcionar sem problemas.
Quantos é que há agora?
A funcionar verdadeiramente, haverá 2 ou 3 e mal.
E mal, não é? Começa por aí. Começa por sensibilizar as “cabecinhas pensadoras” deste país, os membros do Governo, os membros que estão à frente do Ministério da Educação que o xadrez é essencial nas escolas.
Mas, como é que faço isso se as pessoas não estão interessadas e nós próprios não estamos interessados em fazer isso?
Nós temos que lutar para que o xadrez se mantenha… Nós, as pessoas do xadrez, o pessoal do xadrez. Como é que se pode acabar um Plano de Desenvolvimento do Xadrez em Lisboa que tinha a dimensão que tinha e como acabou?
Quem é que tem neste momento condições, não estou a perguntar em termos de pessoas, mas em termos de órgãos ou localidades ou instituições, quem é que neste momento está a fazer alguma coisa ou tem condições para fazer alguma coisa e que esteja ou não a fazer e devia estar a fazer? Quem?
A Federação Portuguesa de Xadrez, por exemplo.
O quê, por exemplo? 
A Federação Portuguesa de Xadrez já deveria ter-se dado ao trabalho de “fazer pressões”, por forma a que o xadrez estivesse em todas as escolas deste país. Não podemos deixar isso para um grupo e eu não quero melindrar ninguém. Há aqui dois tipos de pessoas no xadrez: há aqueles que querem lutar pelo desenvolvimento do Xadrez e aqueles que, pontualmente, exercem funções neste ou naquele Plano, de forma a subsistir, a garantir a sua subsistência. Os Planos são bons, os Planos dão trabalho a muita gente, os Planos motivam muita gente para trabalhar, mas, é necessário que haja Planos apoiados pelo Governo, que foram solicitados pelo estado português.
A Federação tem que arranjar mecanismos de levar alguém a falar com essas pessoas, no sentido de quase “obrigá-las” a aparecerem pelas escolas deste país. Há o caso do Senador Galindo, em Espanha, que levou ao Parlamento uma proposta para o xadrez ser disciplina obrigatória em Espanha. Conseguiu que fosse uma disciplina optativa. Ele no fim disse: «Eu quando pedi obrigatória sabia que me iam dar optativa. Eu queria que me dessem optativa». E hoje, veja-se, 20 ou 25 anos depois, (isto, aconteceu há para aí 20 ou 25 anos), veja-se o boom que deu nos clubes de xadrez espanhóis.
Quem é que tu vês em Portugal, pessoas que não deveriam estar afastadas, ainda que do ponto de vista quase formal, no sentido de criar como que um “grupo de pressão” ou um “grupo de divulgação”, de se fazer qualquer coisa…
… eu não vou citar nomes…
… Eu só estou a colocar esta questão por uma razão simples: tenho tido conversas, são conversas particulares, normais, como tenho com qualquer pessoa, quer dizer, não são reservadas…
… conversas de quintinhas, não é?
Quase… e acontece o seguinte. Todos me dizem, que estão a fazer qualquer coisa, «eu vou fazer uma carta», «eu vou fazer isto», «eu vou fazer aquilo», ou, então, «estou a fazer assim» ou «estou a fazer assado» e nunca se vê nada de concreto, os meses e os anos estão a passar. E eu não vejo rigorosamente nada, à minha volta…
O grande problema é que se a Federação não cria meios para proporcionar alguém no sentido de levar o xadrez às escolas e de o xadrez evoluir, é óbvio que as Associações também não se vão sentir motivadas para isso. O que é que acontece nas Associações? As Associações preocupam-se com a sua quintinha. Leiria preocupa-se em fazer as suas provas, em tentar levar o xadrez às suas escolas. O Porto a mesma coisa. Lisboa terá a mesma postura. Não pode ser, tem que se trabalhar em conjunto.
Tinha que haver uma forma de reunir as Associações, reunir a Federação, fazer um Congresso, definir linhas, reunir estratégias, por forma a pressionar, por que é inconcebível, que num país como o nosso, ainda não se tenha entendido que o xadrez é benéfico para os nossos jovens. É incrível! Como é que ainda não se pensou que se tem que pôr o xadrez nas escolas. E das escolas, partir para outra… Temos um caso, do Petr Velicka, que é da Académica de Coimbra, que ainda numa entrevista recente, disse que se admira de nos cafés em Portugal não haver um tabuleiro de xadrez. Em todos os cafés da República Checa há dois, três, quatro tabuleiros de xadrez aptos a jogar. Consequentemente, nas escolas haverá também tabuleiros de xadrez.
Era difícil este país pensar assim: Quantas escolas temos? Não faço ideia quantas serão, muitas. Vamos pôr dez conjuntos de peças e tabuleiros em cada escola. Vamos pôr nas bibliotecas das escolas. Vamos munir as bibliotecas deste país com tabuleiros de xadrez. Pequenos passos que se vão dando e daqui a 30 anos, se calhar teríamos o xadrez. Se isto tivesse começado a ser feito em 72, hoje, se calhar, estávamos ao nível de Espanha. Não estamos, nem nada que se pareça, estamos muito longe e muito sinceramente não vislumbro que caminhemos para um futuro melhor. Não vejo, especialmente, ninguém muito interessado em tomar isto a pulso e de levar isto às entidades competentes e pressionar, exigir mesmo, que se torne o xadrez uma modalidade em que, pelo menos, em todas as escolas haja um tabuleiro para as pessoas jogarem.
Qual é a análise que fazes da situação do Xadrez em Leiria, em relação ao todo nacional, e, por outro lado, em relação aos eixos Braga-Porto e Lisboa-Setúbal?
A análise que faço do Xadrez em Leiria é que dentro das condições que temos, acho que é uma análise positiva, temos feito aquilo que é possível fazer. Quando tomámos as rédeas da Associação, vai para dois anos, o compromisso que assumimos era que nestes dois anos iríamos trabalhar em prol do xadrez, deste grupo de jovens, dos nossos jovens. E que tínhamos que dar condições aos nossos jovens. Penso que é o que temos feito. Temos levado o xadrez a algumas escolas. Temos apoiado o Desporto Escolar. Aliás, temos apoiado o desporto escolar extra-Associação de Leiria, inclusive, porque temos uma visão de que realmente o xadrez não se confina à nossa Associação. Se nos pedem ajuda de outro lado, nós temos que a dar. E penso que estamos a dar passos certos, embora, sem os tais apoios. É óbvio que os apoios não nos caiem do céu. Nós temos que trabalhar para os conseguir. Vou dar um exemplo muito concreto. Quando tomámos as rédeas da Associação elaborámos um Plano de Desenvolvimento de Xadrez a apresentar nas mais fortes Autarquias do nosso distrito. Elaborámos uma brochura muito bem feita, muito bem substanciada, muito bem fundamentada, com um custo excessivamente baixo e com uma panóplia de ofertas, para os nossos jovens em todas as escolas do distrito, e, posso dizer que todos os autarcas que nos receberam em reunião e se admiraram do nosso projecto, dizem que era um projecto muito bom e muito benéfico, ficaram todos de nos dar uma resposta e até hoje ninguém nos deu resposta alguma. No entanto, eu sei, por exemplo, que em Leiria, não foi conseguido o apoio para levar o xadrez às 14 escolas do 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico da cidade de Leiria, não nos foi concedido um apoio – estou a falar à volta de € 7000,00 para um ano inteiro – envolvendo 560 miúdos, não nos foi concedido esse apoio e foi concedido um apoio para uma prova de BTT de € 5000,00, uma prova que se realizou durante um fim-de-semana.
Enquanto houver esta mentalidade, dentro das Autarquias, dentro do Governo, dentro dos Ministérios, enquanto houver a mentalidade, que eu digo, sem pejo nenhum e sem problema nenhum, a mentalidade das pessoas que estão à frente dessas instituições preocupam-se apenas com aquilo que lhes dá visibilidade, se aparecem na televisão, se aparecem no jornal, se cortam uma fita, enquanto essa mentalidade reduzida das pessoas que comandam este país, o xadrez não tem futuro absolutamente nenhum.
Como é que surgiu em ti a ideia de ser árbitro?
Bom, a arbitragem. O gostinho pela arbitragem, não só pela arbitragem, pela parte organizativa, já me vem desde o princípio da minha carreira de xadrezista que remonta a trinta e alguns anos. Desde os primórdios, desde o Liceu, sempre quis formar secções de xadrez… formei nos liceus por onde passei. Sempre tive um gosto pela parte organizativa, pelas secções de xadrez, pela parte de organização de torneios, e, um belo dia, numa final da Taça de Portugal, sendo eu adjunto do meu colega e amigo João Abrantes, fui adjunto dessa final da Taça de Portugal, ganhei o bichinho pela arbitragem e optei a partir dessa altura e decidi que queria tentar chegar ao topo da carreira de árbitro e para isso trabalhei. Penso que arduamente, modéstia à parte, fiz tudo o que havia para fazer, trabalhei afincadamente, prejudiquei a minha vida pessoal, prejudiquei a minha vida desportiva em termos de jogo. Gostava muito de jogar xadrez e ainda jogo e gosto, mas claro, que arbitro mais do que jogo, e, pronto, consegui chegar ao patamar que tenho hoje, que é o título máximo da FIDE. Penso que tenho honrado, acima de tudo, o xadrez português, tenho dignificado o xadrez português por onde passo e penso, que tenho também dignificado e compensado todo o esforço que fiz em detrimento da minha vida familiar, inclusive. Penso que tenho tido uma carreira bonita, modéstia à parte, e vou continuar a lutar para ter, e, essencialmente, para levar sempre longe e alto o nome do nosso xadrez.
Referiste aí um aspecto importantíssimo, do meu ponto de vista, que é o seguinte… «em prejuízo da minha vida pessoal, familiar». Achas que é isto que está a afastar alguns jogadores e, sobretudo, as jogadoras, que a partir de uma determinada idade desaparecem por completo? A vida familiar, isto é, o xadrez é um hobby e há-de ser sempre um hobby… e nunca passará de um hobby, porque ou é um hobbyzinho ou se é um profissional? Não há uma situação intermédia que mobilize a maior parte das pessoas?
Exactamente, é isso mesmo. O Xadrez, para a grande maioria das pessoas vai ser sempre um hobby. Não há, tirando raras excepções, e sabemos, conhecemos as excepções que são, ninguém consegue viver apenas e só da modalidade do xadrez. Eu próprio não consigo viver apenas de arbitragens, porque não temos em Portugal provas suficientes e eu não vou tantas vezes lá fora que me permita viver só de arbitragens. Em Espanha, haverá muitos árbitros que vivem só de arbitragens de xadrez. Grandes Mestres, quantos é que temos aqui, profissionais? E M.I.s quantos são? Pouquíssimos. Porquê? Porque a nossa estrutura… quando falo do xadrez nas escolas, estou a falar no xadrez nas escolas todas que vai permitir depois que o xadrez se expanda de tal forma que passe a haver pessoas profissionais de xadrez em Portugal, na área do ensino, na área da arbitragem, na área do jogo jogado, mas isso… lá está, estamos a anos-luz de chegar aí, e ninguém pode viver só do xadrez.
No caso das raparigas é perfeitamente compreensível, as raparigas têm aquele auge do gosto pela modalidade até aos 16, 17, 18 anos, tirando excepções como a Catarina, por exemplo, vemos jogadoras que deixaram de jogar. Temos a Isabel Pereira dos Santos, que foi oito vezes campeã nacional, deixou de jogar. A Alda Carvalho que foi mãe há poucos dias, deixou de jogar. Porquê? Porque casam, têm a sua vida pessoal. Começam a ter os seus filhos. Têm a sua vida profissional. Não podem viver do xadrez. O xadrez não lhes dá pão.
Mas, o xadrez é um jogo de solteiros e casados, como alguém já disse?
Não, não será (sorrisos) … Se calhar até é. Se calhar quando se é solteiro tem-se liberdade para jogar, quando se é divorciado pode-se jogar. Quando se é casado, não se poderá jogar… Eu não levo a esse ponto. Eu creio, essencialmente, que quem quiser… gostar de xadrez e levar o gosto pelo xadrez avante tem de ter uma estrutura familiar forte. Eu falo por mim. Tenho felizmente …
… felizmente…
… tenho uma esposa fabulosa. Toda a gente do xadrez conhece e admira, que não sabendo jogar xadrez, acompanha-me em quase todas as provas para onde eu for, com uma paciência de Job e que nunca, nunca me diz para não ir aqui ou ali. Respeita-me o gosto pelo xadrez e como disse, às vezes com prejuízo da minha vida profissional e pessoal.
Concordas que em Portugal, actualmente, se continue a ser árbitro sem certificação oficial da
Federação Portuguesa de Xadrez, isto é, que as Associações Distritais por um lado, e a Federação por outro, continuem a aceitar provas arbitradas por quem não está certificado?
Não. Não estou de todo de acordo com isso. Repara Vieira, eu fiz parte, estive à frente do Conselho Nacional de Arbitragem. Terei feito coisas boas, terei feito coisas más. Não importa o que fiz, importa o que o Conselho fez. Éramos uma equipa de três elementos. Fomos várias equipas de três. Eu estive seis anos à frente do Conselho e fizemos n cursos de arbitragem. Muitos mesmo. Formámos muitos árbitros de xadrez. Agora o que se passa na arbitragem é aquilo a que eu chamo e ficou como uma frase emblemática que é a de “um verdadeiro sacerdócio”. E porquê? Porque a pessoa que arbitra gosta de jogar. Nós temos muitos bons árbitros em Portugal, que eu conheço-os, mas que, por serem também jogadores e preferirem jogar não estão no activo a arbitrar. O que é que acontece? Acontece que, durante esses seis anos, eu lutei para que todas as Associações tivessem um Conselho Distrital de Arbitragem. Houve muitas que não respeitaram esse pedido e era uma obrigatoriedade por causa dos órgãos sociais de cada associação distrital: um Conselho de Arbitragem Distrital. Penso que algumas delas ainda hoje não têm um Conselho Distrital de Arbitragem. Logo, não podem ter árbitros distritais. E depois é a questão da formação dos árbitros. Os árbitros tiram um curso, ficam Árbitros Distritais. Depois, há mecanismos para subir na carreira, mas, eu pergunto uma coisa: as Associações terão verbas para pagar aos árbitros para arbitrar provas? Os árbitros estão dispostos a arbitrar de borla? O árbitro tem a legitimidade para pensar «eu vou arbitrar, estou ali quatro horas, cinco horas por dia, não recebo nada, então, vou jogar. Também gosto de jogar. Prefiro perder o meu tempo a jogar». E esta credibilização… Isto não é querer que os árbitros… Se arranjarem mecanismos para os árbitros viverem só do xadrez. Mas, se queremos que haja árbitros a arbitrar temos que dar uma compensação aos árbitros. Temos que credibilizar a modalidade. Não havendo uma compensação não vai haver árbitros certamente.
A Federação tem que arranjar mecanismos para credenciar os árbitros. Não pode permitir que sejam homologadas provas arbitradas por árbitros que não são árbitros. Isto é tudo uma bola de neve. Se nós virmos que houve provas que foram homologadas pela FPX e que foram arbitradas por “não árbitros”, então estamos a falar de um erro crasso que é cometido ao mais alto nível. Se nós virmos que houve Conselhos Nacionais de Arbitragem, que eu dirigi, ao longo desses seis anos que referi, e que não eram legitimadas pela própria Federação, que não tinham poder para fazer aquilo que entendiam ser recto e justo para a arbitragem, porque as pernas eram cortadas pela FPX, então como é que podemos ter uma estrutura arbitral em Portugal? Não podemos. Isto é tudo uma bola de neve que era preciso… isto é um novelo que era preciso desenrolar, para ver o que é que foi mal feito, porque foi tudo muito mal feito de há uns anos para cá. Nada bem feito, a meu ver.
Qual é a análise que fazes do xadrez actual?
Actual? Neste preciso momento?
Neste preciso momento.
Penso que estão criadas as condições para que o xadrez a partir de agora navegue em águas calmas. Essencialmente, em águas calmas. Se virmos que nas últimas direcções houve problemas internos gravíssimos que em nada dignificaram o xadrez, que transpiraram para fora da própria Federação, dando uma má imagem do xadrez, e, isso vem contra aquilo que atrás foquei, que se tinha que credibilizar a modalidade. Não se credibilizou de todo a modalidade, houve muitas questiúnculas internas que não deveriam transpirar cá para fora e transpiraram. E se virmos que nos últimos anos, tirando a Direcção do Zé Armando Silva, que tinha uma equipa de trabalho coesa, que efectivamente tinha, era unida e que, apenas pecou, a meu ver, por querer fazer as mudanças todas, muito radical, muito rapidamente, temos que todas as outras Direcções tiveram sempre problemas internos. Nunca se navegou em águas calmas, nunca se parou para pensar no que era realmente benéfico e útil para o nosso xadrez. Como disse, neste momento, encaro com muito optimismo. Porque não vejo razão para não encarar, porque a equipa parece-me coesa, tem todas as condições para trabalhar, tem o apoio de todas as Associações do país, pelo que não vejo razão por que não possa fazer um excelente trabalho.
Qual é a tua posição, do que é conhecido publicamente, isto é, um Despacho do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, por um lado, e um ofício que o IDP endereçou à Federação Portuguesa de Xadrez, a respeito dos estrangeiros, quer em termos de provas individuais, quer em termos de provas colectivas? Isto é, a tua opinião pessoal ou se quiseres na qualidade de Presidente da AX Leiria, do ponto de vista institucional?
Claro.
Se quiseres falar…
… não, não, eu falo daquilo que eu defendo. Aquilo que eu defendo é a minha opinião pessoal e essa eu não mudo, só por estar neste ou naquele cargo. Eu mantenho a minha opinião, coerente, esteja aqui, esteja ali. Agora, aplico aqui a minha opinião ou tento aplicá-la ali, consoante eu ache que é razoável aplicá-la ali ou pelo facto de ter uma opinião que há-de ser minha e que tenho que defender, mas posso pensar assim: «não é justo, que levem para este órgão porque está desajustado naquela órgão…», mas, a minha opinião é a mesma. E a minha opinião é a seguinte: A nível colectivo, não me escandaliza nada que uma equipa jogue com quatro estrangeiros. Ponto final. Porque é uma equipa. Porque está-se a disputar um Campeonato Nacional de Equipas. Os jogadores serão campeões nacionais de equipas, mas o título é atribuído ao clube. Portanto, não me escandaliza nada que uma equipa jogue com quatro estrangeiros. A nível individual, não deve ser permitido jogarem estrangeiros nas provas nacionais. E não deve ser permitido jogarem estrangeiros desde que começa o ciclo da prova nacional que é a fase preliminar. Eu ainda tolero…
… mesmo numa fase distrital?
… eu ainda tolero, embora não seja muito defensor disso, mas, ainda tolero que numa fase distrital, a Associação permita que joguem. Se foi aprovado na sua Associação. Se a Associação tem os Estatutos assim, se a Associação tem os regulamentos assim, não me escandaliza que joguem. É da responsabilidade das referidas Associações. Assim, que começa o ciclo nacional propriamente dito, que começa com a fase preliminar, estamos a começar a disputa do título nacional, não pode ser permitido o acesso a estrangeiros. Porquê? Porque como toda a gente sabe e toda a gente é dessa opinião – não percebo porque é que não se mexem para mudar as coisas – todos com quem tenho falado são da mesma opinião que eu: influencia os resultados da prova. Os estrangeiros ao participarem numa fase preliminar estão a influenciar o resultado daquela prova. Estão a condicionar o apuramento de jogadores nacionais.
Esta prova que estás a dirigir neste momento como árbitro está condicionada?
Se virmos a última sessão da fase preliminar, nas primeiras mesas estavam três jogadores estrangeiros. Não tenho nada contra os jogadores estrangeiros, por amor de Deus. Defendo até que eles venham jogar para Portugal. Se forem uma mais-valia para o nosso xadrez, se tiverem uma postura correcta e digna, acho que devem cá estar e tenho muito gosto em que cá estejam. Mas, não podem influenciar o título nacional. Na última sessão da Preliminar, pode ter havido influências no resultado, a nível de apuramentos, poderiam estar jogadores, aqui na final ou pelo menos um, não vou citar nomes – as pessoas que vejam o \ – podia estar aqui um jogador que não está, se calhar porque perdeu na última sessão. Não acho que seja justo e não acho que seja correcto. Agora, se me disserem assim: «Ah, a preliminar é um “fechado”. Está bem, um “fechado” e jogam estrangeiros, mas não conta o resultado dos estrangeiros para a classificação final». Aí, não estamos a influenciar nada. Embora, estejamos sempre, porque é mais um jogo que o jogador faz, é mais uma carga de tensão que o jogador tem e que não deveria ter, porque está a jogar com um jogador que não está ali a jogar para nada. Está apenas para fazer presença. Mas, como disse, num “suíço” não podem condicionar resultados, não podem influenciar resultados. E numa Final, então, muito menos, porque não pode ser atribuído o título. E a questão é basicamente esta, se não lhes pode ser atribuído um título, porque é que jogam a Preliminar? Por questões financeiras? Pelos prémios monetários? Há muitas provas com prémios monetários para jogar.
Já conheces a situação actual do seguro desportivo porque já tive a oportunidade de te colocar ao corrente, quer a ti, na qualidade de Presidente da AX Leiria, quer ao Presidente da AX Porto, quer à Presidente da AX Lisboa que é igualmente Vice-presidente da FPX, quer ao Presidente da FPX, a situação do seguro desportivo. O que é que pensas disso? O que é que pensas fazer para alterar a situação?
Eu penso que é preciso mudar o Seguro Desportivo. É preciso, essencialmente, encontrarmos uma forma e, fazendo uma prospecção do mercado a quatro ou cinco seguradoras, é simples. Pede-se uma análise, leva-se os nossos Estatutos, leva-se a nossa Federação à Companhia de Seguros e diz-se: Temos esta Federação assim, temos esta filosofia, temos estes praticantes, temos este quadro competitivo. Qual é o melhor seguro para enquadrar isto? Penso que é fácil. Temos quatro opiniões, escolhemos a melhor. A actual, segundo o que ouvi e porque fui confrontado com isso há coisa de uns meses, o actual penso que não é justo. Se entendermos que até aos 14 anos os miúdos não estão cobertos, estão a pagar e não estão cobertos, ao que julgo saber…
… não, estão cobertos, mas, …
… estão cobertos, mas há umas cláusulas que não os abrange e a partir dos 70 também não. Penso que é profundamente incorrecto, por parte da Federação, ter uma Apólice de Seguros com base nisto.
A outra coisa que acho que se deve separar – e agora só
a talhe de foice, lançar esta
acha para a fogueira, para que as pessoas também pensarem um bocadinho nisto – é na forma com que se atribuem os subsídios às Associações. Vamos ter atenção, vamos arranjar uma forma de dar os subsídios às Associações, por objectivos, por número de praticantes, por provas feitas, tudo bem, mas vamos pensar um bocadinho naquilo que pode estar por detrás disso tudo. Leiria tem, e eu falo da minha Associação como água, Leiria tem, € 1.140,00, para gerir o xadrez nacional, o xadrez distrital perdão. Porque tem 200 jogadores, 200 e tal jogadores, já teve 300, agora tem 200. Mas uma das formas de termos mais dinheiro era arranjar mais jogadores. Era fácil, nós, em Leiria arranjarmos nos ATL, mais 400 ou 500 jogadores. Não o fazemos, porque isso é uma forma errada. Isso é, a meu ver, uma forma muito errada de trabalhar no xadrez. Eu não estou a acusar Associação nenhuma, por amor de Deus, estou só a lançar esta
acha para a fogueira, para pensarmos se realmente todos os filiados que aparecem na Federação, se todos jogam xadrez. Porque eu sei que há Associações que têm mais filiados do que Leiria e que têm menos jogadores do que Leiria.
Aliás, desculpa Vieira, se eu quisesse mais 5 ou 6 filiados por Leiria tinha. Filiava a minha mulher, a minha mãe, filiava o meu pai, filiava as minhas duas primas que residem ao pé de mim. Mas eu não faço isso. Porque acho que é uma forma errada de se estar no xadrez. Como dirigente, não posso concordar com isto. Não sei se se passa nas outras Associações a mesma coisa, mas vou esperar que se passe a mesma coisa que em Leiria, para bem do nosso xadrez.
Focaste há pouco, que o exemplo espanhol, comparando com o exemplo português, na questão do Plano de Introdução do Xadrez em Espanha. Pedia-te para recolocares a questão, até tomando como outro exemplo o Prof. Uvêncio Blanco, na Venezuela. Achas que são dois bons exemplos que poderíamos seguir para Portugal?
Poderíamos. Já poderíamos era ter seguido há muito tempo.
O que é que Espanha conseguiu em termos de Plano, em termos de calendário, que Portugal não o fizesse e devesse ter feito?
A Espanha conseguiu tudo a partir desse momento. Se virmos a Espanha hoje, é rara, a localidade espanhola que não tenha um Plano de Xadrez. E aí, sim, os estrangeiros vêm, vêm e são mais-valias. Se virmos a quantidade de estrangeiros que estão em Espanha, muitos deles já foram naturalizados espanhóis e que vieram para Espanha, por via do ensino, se virmos isso, vamos ver a mais-valia que eles constituem em Espanha. E que hoje residem em Espanha. N casos, montões de estrangeiros de grande valor, que foram para Espanha ensinar xadrez porque havia Planos, porque havia escolas, porque havia muita coisa onde ensinar, porque estava a dar. Os estrangeiros que vêm para Portugal, salvo raras excepções, vêm para jogar, receber aquilo para que vieram, recebem os honorários, jogam meia dúzia de jogos e vão-se embora. É mais útil trazê-los para cá, pagar-lhes. Sim senhor, joguem, mas, tentar integrá-los também no ensino, caso do Petr Velicka, por exemplo, que está a fazer um excelente trabalho na Académica de Coimbra.
Obrigado Carlos por esta entrevista e felicidades nas tuas várias funções em prol do xadrez nacional.