
Entrevista efectuada por Yevgeny Surov para Crestbook a Anatoly Karpov (tradução do russo para inglês de Dana Mackenzie)
Encontrei-me com Anatoly Karpov no calor do que eu não tenho medo de chamar uma guerra para a presidência da FIDE. Por esta razão, até a brisa da aldeia de Poikovsky, onde a escola fundada pelo 12º campeão do mundo comemora o seu décimo aniversário não poderia soprar outros tópicos na nossa discussão do que aqueles que estão na mente de todos.
Não há muito tempo atrás Kirsan Ilyumzhinov divulgou a sua equipa, apresentando os nomes da sua lista concorrente à eleição presidencial da FIDE. Pode dizer-nos com quem está a concorrer?
Ainda não, mas a equipa está quase pronta.
No entanto, é uma questão importante.
Muito importante. Estou satisfeito com a minha equipa. E eu penso que será importante e necessário para o mundo do xadrez, porque queremos mudar seriamente a situação no xadrez, incluindo a questão dos patrocínios. As pessoas que concordaram trabalhar comigo são pessoas conhecidas que alcançaram êxitos significativos nas suas profissões. Ao mesmo tempo amam o xadrez e ocupam elevadas posições no mundo do xadrez. É uma combinação perfeita.
Então, por enquanto, não pode nomear um único nome? Nem sequer dar uma dica?
Eu posso nomear um: Richard Conn. Anunciámos há muito
tempo que ele será o Vice-Presidente. É um advogado internacional muito conhecido e um jogador de xadrez com um rating à volta de 2000. Por isso, é uma pessoa séria no xadrez. Além disso, o presidente da Federação de Xadrez da Ucrânia, [Viktor] Kapustin que é também uma pessoa séria e um homem famoso no mundo financeiro, estará na nossa equipa. Não vou revelar mais nada neste momento, mas quase tudo foi clarificado. Penso que por volta da próxima semana estaremos em condições de anunciar todo o grupo.
Já disse em várias ocasiões que uma das suas prioridades será aumentar o prestígio do título de campeão do mundo e também criar um sistema único para a atribuição desse título. Mas muitos mestres em, digamos, o nível médio está preocupado que, quando chegar ao poder eles vão ser esquecidos. Não obstante a opinião que tenha sobre ele, Ilyumzhinov desenvolveu um sistema em que um grande mestre que não for um sério candidato ao título de campeão do mundo ainda pode ter uma vida decente, mas …
Enquanto eu puder “ter uma vida decente” é preocupante, mas isso é um exagero. Mesmo na Taça do Mundo, sim, se passar as duas primeiras fases, ganha uma soma decente, mas muitos grandes mestres nem sequer ganham para as suas despesas por participarem. Na realidade, esta será uma das tarefas mais importantes com que estamos confrontados para melhorar a posição dos profissionais de xadrez. Por causa diss0 as condições nos últimos dois anos descontrolaram-se (em parte devido à crise financeira, não apenas por causa das acções do meu adversário). Se não tivessem ido ao Campeonato Europeu de Clubes e à Taça da Europa, então teria sido realmente difícil para os grandes mestres, mesmo para sobreviver. Os únicos que ganham muito dinheiro são aqueles que chegam ao topo do Olimpo do xadrez e, por isso, devemos prestar mais atenção às questões dos grandes mestres e mestres internacionais. Vamos tentar atraí-los para o desenvolvimento e realização dos nossos programas. Vou estar tão activo quanto possível no xadrez na educação, e que é, claro, uma fonte de rendimento complementar para os grandes mestres. Vamos também pedir aos grande mestres para participar na promoção de xadrez em todos os continentes e que lhes dará uma oportunidade para colaborar com a FIDE e aumentar os seus orçamentos.
Vamos ficar no tema das finanças. Já disse várias vezes que você tem patrocinadores, mas ainda não nomeou nomes concretos ou organizações. Pode levantar um pouco a cortina?
Não, por agora não vou entrar em detalhes. Há um tempo para tudo. Afinal, ainda estamos a três meses e meio das eleições.
Sabe que é da natureza humana ter medo do desconhecido.
Sim, mas não vamos votar amanhã. É completamente óbvio que se não tivesse importantes perspectivas, não teria começado esta campanha. Porque ganhar a eleição é apenas o início de uma grande tarefa. E o trabalho vai para além disso, por exemplo, o que eu estava a falar anteriormente, o campeonato do mundo. Eu não planeio uma reforma completa deste sistema, mas algumas alterações são necessárias, em especial, ao nível da escolha do candidato [challenger]. Actualmente os matchs são demasiados curtos (seis partidas é muito pouco), devem ser mais longos. Nem sequer vou entrar no sistema que tínhamos antes – os campeonatos ko não podem ser chamados de outra coisa senão um simulacro de xadrez e da imagem do campeonato do mundo. E agora, graças a Deus, desistimos disso, embora continue presente na Taça do Mundo. Mas para a Taça do Mundo este sistema é aceitável. Por princípio, não gosto quando diferentes tipos de xadrez estão misturados. Parece-me que isto é contrário ao espírito do nosso jogo. E permita-me este à-parte – não há qualquer questão, eu próprio joguei semi-rápidas e rápidas [blitz]. Penso que devíamos ter um Campeonato Mundial de Rápidas e campeonatos de rápidas continentais que seriam muito interessantes (embora não completamente sob a jurisdição da FIDE). Tal como tivémos uma vez um Campeonato do Mundo de Semi-Rápidas e campeonatos continentais no mesmo jogo. Para falar de perspectivas futuras, penso que o xadrez está numa posição muito interessante, sobre a possibilidade de captação de atenção e recursos adicionais. A competição no topo pode realmente ajudar: Kramnik, Topalov, Anand e Aronian são óptimos jogadores e temos jovens estrelas em Magnus Carlsen, Seryozha Karjakin e Hikaru Nakamura e existem também muito bons xadrezistas na China. Ou seja, a geografia é muito interessante. Nunca no passado houve jogadores de tantos países a lutar pelo título de campeão do mundo.
Como responderia às declarações de alguns grande mestres famosos de que a sua aliança com Kasparov não vai conduzir senão à destruição do xadrez?
Exatamente o contrário, foi o nosso adversário que conduziu à sua
destruição. Não trabalhamos juntos. Mas Kasparov não é o único a apoiar-me agora. A situação no mundo do xadrez é mais complicada: precisamos de caras novas, novos nomes; uma equipa que responda às suas questões, que conheça o xadrez profissional e não faça o que a equipa de Ilyumzhinov tem feito. Parece-me que os xadrezistas, verão rapidamente a diferença entre nós. E é uma grande diferença. É claro, que há sempre cépticos, o que se pode fazer sobre isso? É verdade, li mais declarações a favor do meu movimento, mas consegue, naturalmente, encontrar alguns do outro lado. Mas são feitos, sobretudo, sobre pressão da liderança ou para ser mais preciso, de um ramo da liderança da Federação Russa de Xadrez.
A propósito, conte-nos sobre a situação no interior da Federação. Poucas pessoas prestaram atenção a este facto: na votação de 14 de Maio, 17 membros do Conselho de Supervisão em 32 apoiaram-no (a maioria). Na mesma altura, oito pessoas reuniram-se no local do Dvorkovich. 17 + 8 = 25. Surge a pergunta: quem são as outras sete pessoas? É este o ás de trunfos que está preparado para jogar no caso de Dvorkovich seduzir dois ou três votos para o seu lado? (Actualmente estão a ser feitas previsões deste tipo.)
Não, mas o que quer dizer com “seduzi-los”? Compreende que eles não estão
apenas seduzir as pessoas, estão simplesmente a forçá-las. Talvez Dvorkovich nem sequer saiba que, sob a sua asa, têm trabalhado da forma mais vergonhosa - com ameaças … Ou seja, o xadrez colocou-se numa situação completamente incompreensível. Nem vou mencionar todos aqueles re-votos e os documentos que foram forjados por aí. E eu não falarei sobre o ataque à FRX [Federação Russa de Xadrez] por salteadores. Tal coisa nunca aconteceu antes, que a sede da Federação na Boulevard Gogol foram selados. Eu entendo que Dvorkovich queira apoiar Ilyumzhinov, mas há limites para o que se pode fazer legalmente. E essa fronteira foi ultrapassada.
Mencionou que as pessoas têm sido pressionados com ameaças. Tem factos que sustentem essas queixas?
Tenho algumas informações. Estão a ameaçar pessoas com a perda dos seus empregos, se ocupam lugares no Estado. Não sei muito bem como é que isto é compatível com o Código Penal da Federação Russa.
Por que pensa que a batalha para o cargo de presidente da FIDE se tornou tão amarga?
Não sei. Para mim é simplesmente um mistério. Você e eu já abordámos o facto de que ganhar as eleições é só o princípio de uma grande tarefa. Ilyumzhinov está à frente da Federação há quinze anos. Certas pessoas estão, sem dúvida satisfeitas com os seus resultados, mas a maioria não está. Se estivessem satisfeitas não seria um número tão grande de países que já declararam apoiar-me. E estes são, na maior parte, as mais activas potências do xadrez. Estamos a trabalhar com os países mais pequenos ,é claro que iremos apresentar-lhes o nosso programa. Estes incluem, em primeiro lugar, programas de ensino de xadrez, preparação de treinadores, professores e árbitros de xadrez. Penso que iremos organizar seminários internacionais para árbitros, para que esta área não passe despercebida.
Como sabe, as pessoas às vezes fazem o seguinte jogo: “Se chegar a presidente do seu país quais seriam as suas três primeiras acções?” Agora não está a jogar, mas tem perspectivas reais …
Não, continuo a jogar! Fiz um grande número de apresentações – fundei escolas, dirijo seminários. Ou seja, estou activo no xadrez. E, claro, conheço muito bem o xadrez. A minha carreira profissional tem 45 anos. E joguei o meu primeiro torneio há 52 anos.
Para além disso, pode identificar agora acções concretas que tomará quando for presidente da FIDE?
Verá tudo no programa que vamos publicar. Vamos apresentá-lo em
breve. Mas já identifiquei os pontos principais: trabalho activo para melhorar a imagem da FIDE. Penso que serei capaz rapidamente de firmar um programa de colaboração com as maiores organizações internacionais – UNESCO, UNICEF. Neste momento estou em negociações com uma organização internacional de juventude. Tudo isso vai reforçar a situação da Federação e fortalecer-nos quando negociarmos com patrocinadores. Todas essas direcções estarão entre as nossas prioridades, bem como, claro, o desenvolvimento do xadrez para crianças. E os países de cada continente participarão neste programa.