Entrevista concedida pelo GM António Fernandes ao blogue Ala de Rei esta semana.
A proximidade das Olimpíadas de Dresden e uma Assembleia Geral da FPX que deveria abordar a “questão olímpica” são apenas dois aspectos de um processo que foi desde o início mail dirigido e que ainda se encontra longe de uma solução satisfatória para o actual campeão nacional que corre o risco de ficar em Portugal a ver jogar…
O Presidente da FPX, António Bravo, que já se defrontou com uma questão semelhante nas Olimpíadas de Calvià, em 2004, não aprendeu a lição e volta a insistir no mesmo erro. Mas será que é apenas um erro? António Fernandes, na entrevista que concedeu à jornalista do jornal Expresso, vai mais longe e afirma claramente que o Presidente da FPX praticou «tráfico de influências».
Mas passemos a palavra ao GM António Fernandes, o actual Campeão Nacional de Xadrez:
Como é que tudo começou? Quando é que reclamaste, a quem e porquê?
Efectivamente tudo começou quando, em Julho passado, para meu espanto, me apercebi da rapidez com que a Direcção da FPX estava a tomar as decisões a este respeito, ou seja, a divulgação no seu sítio na Internet, dos jogadores que deveriam integrar as selecções nacionais. Porque tanto quanto sei, nestas situações as direcções anteriores sempre salvaguardaram as provas mais importantes do país, como é o caso dos campeonatos nacionais.
Considero ser esse o procedimento mais adequado e utilizado por qualquer Federação isenta que se preze. Agindo com bom senso e em conformidade para garantia da melhor selecção nacional disponível, como foi sempre a postura de anteriores direcções da FPX e como obviamente é o caso actual de várias federações internacionais, como a da nossa vizinha Espanha por exemplo, a qual, em Junho passado, obteve a garantia da organização da Olimpíada para uma inscrição definitiva dos representantes da sua selecção até ao mês de Setembro, caso entendessem necessário efectuarem alguma substituição.
Desta forma, e perante a atitude intempestiva da Direcção da FPX, vi-me forçado a tentar perceber os resultados, finais, apresentados numa lista de performances relativamente aos seis primeiros jogadores da mesma. Tendo apurado algumas irregularidades, denunciei-as ao Sr. Fernando Castro e ao Sr. António Bravo. Devo referir que não me foi possível efectuar com rigor a confirmação detalhada dos resultados apresentados, uma vez que esses dados, embora pedidos com alguma insistência, nunca me foram fornecidos.
Posteriormente, com a conclusão do Campeonato Nacional Absoluto, no qual me consagrei campeão nacional, tendo tomado conhecimento público de possíveis irregularidades cometidas por parte da Direcção da FPX, nessa altura sim, efectuei um protesto, enviado à minha associação que, por sua vez, reencaminhou para a FPX, relacionado com a forma descuidada e inapropriada como todo o processo foi conduzido. A partir desse momento assistia-me, por direito próprio, de acordo com o regulamento [o Regulamento das Representações Nacionais (RRN)] em vigor, de integrar a selecção nacional.
Foi por isso que pediste a convocação de uma Assembleia Geral da FPX?
Sim. Bem, pedi a quem tinha competências para o fazer, nos termos dos estatutos da FPX. Desse modo dei a conhecer às respectivas associações as minhas pretensões em virtude das ilegalidades ou simples irregularidades cometidas pela Direcção da FPX.
O Presidente da Mesa da Assembleia Geral não convocou a Assembleia nem a teu pedido nem a pedido das várias Associações distritais. Como interpretas a sua recusa?
Não compreendo a razão para a não convocação, pois estando reunidas os requisitos e as condições que os Estatutos exigem para a sua convocação, não entendi a posição nem as explicações do Presidente da Mesa da Assembleia Geral. Tanto quanto sei, o Presidente da Mesa deveria limitar-se às funções inerentes ao cargo que desempenha e não intrometer-se no processo, com as suas interpretações estatutárias sobre a competência dos órgãos que além de não estarem correctas impossibilitaram a realização do órgão máximo da Federação. Houve, no mínimo, excesso de zelo da sua parte, sobretudo, quando ninguém lhe pediu para emitir as suas opiniões pessoais.
Foi por isso que resolveste escrever ao Sec. Estado da Juventude e do Desporto?
Claro. Depois de apresentados factos concretos sobre o assunto, depois de um indeferimento ao protesto apresentado, depois de vetada a marcação de uma Assembleia Geral, proposta por várias associações, as quais revendo-se nas denúncias apresentadas ou simplesmente tentando apurar o esclarecimento da verdade e a responsabilidade dos actos, perante as tomadas de decisão da Direcção da FPX, não me restou outra alternativa do que abordar o assunto com organismos superiores.
O que esperas do Secretário de Estado?
Espero que o Secretário de Estado de acordo com as suas competências e perante a gravidade da situação, actue em conformidade o mais rapidamente possível.
Como avalias a conduta do Presidente da FPX, António Bravo e as suas declarações à comunidade xadrezista [na página oficial da FPX] e ao jornal Record?
Lamentáveis.
E dos restantes membros da Direcção em todo este “processo das selecções olímpicas”?
Lamentavelmente, uns pecam pela falta de opinião e outros, aqueles que proferiram afirmações sobre o assunto, falam demais, desconhecendo as irregularidades cometidas ou simplesmente estiveram afastados de todo este processo. Espanta-me que ninguém tivesse dúvidas sobre o procedimento adoptado pelo Presidente, mesmo quando as ilegalidades ou simples irregularidades estavam à vista de todos ou já estavam a ser denunciadas na blogosfera e mesmo na comunicação social, como foi o caso do jornal Record.
Consideras que existe incompatibilidade da Maria Armanda Plácido, na acumulação de cargos na FPX e AX Lisboa [M. Armanda Plácido é a Vice-Presidente da Direcção da FPX e a Presidente da Direcção da AX Lisboa]?
À primeira vista assim parece.
Parece existir um claro conflito de interesses, se analisarmos atentamente o desenrolar de todo o processo (excepção do torneio de mestres e não excepção do nacional feminino) leva a que se possa até crer em favorecimento para além de existir uma falta de intervenção da AX Lisboa, a maior e mais importante Associação do país, neste processo (por interesse?). Penso que estes organismos devem pautar por uma total isenção de interesses pessoais e se olharmos ao passado verificamos que no caso Calvià 2004 a intervenção da AX Lisboa foi determinante para o desfecho do processo.
Uma intervenção activa da AX Lisboa no actual caso, também, teria sido decisiva para o apuramento da justiça e da verdade desportivas. Perante tal atitude e postura da AX Lisboa, é óbvio, compreensível e passível de ser interpretada por dedução lógica uma reposta, e creio que todos estarão de acordo, quando se questiona o porquê destas atitudes totalmente diferentes perante casos totalmente semelhantes.
E notas uma concertação de posições entre o Presidente, a Direcção e a Mesa da Assembleia Geral da FPX?
Comungando ambos da opinião de que a decisão da Direcção da FPX, por muito errada que seja, é soberana e não pode ser alterada, sim.
Qual a importância que atribuis à situação que se está a passar quanto às selecções olímpicas, do ponto de vista do prestígio da modalidade?
É bastante grave, pois uma modalidade que à primeira vista é encarada como praticada por alguém que sabe pensar, ponderar e agir de acordo com uma razão lógica, acaba por ser encarada mais como qualquer outra modalidade banal que afinal nem sequer sabem discernir e aplicar os regulamentos. Posso afirmar com conhecimento de causa, de que a actual situação está a ter repercussões negativas a nível internacional, incrédulos perante tal situação.
Qual a análise que fazes ao dirigismo associativo que temos?
Sou um pouco suspeito para comentar, uma vez que estou envolvido num diferendo com a própria Direcção da FPX. Mas, como já comentei por diversas vezes e até numa recente entrevista, considero que as actuais directrizes do dirigismo associativo pecam no seu todo; por um lado ao nível do desenvolvimento, promoção e dinamização da modalidade e por outro ao nível da competição internacional, tal como eu, também já o GM Luís Galego criticou a actual Direcção, como exemplo, verifica-se o procedimento adoptado no que respeita à convocatória de ambas as selecções nacionais ou ao tratamento que a mesma dá aos melhores jogadores do país, abandonando a participação em uma das provas mais importantes do calendário internacional, como é o caso do Campeonato da Europa a nível de selecções.
Porque te consideras prejudicado moral e desportivamente?
Porque me ensinaram a lutar pelos objectivos a que me proponho. Como tal, tentei dar o meu melhor para que de acordo com os regulamentos pudesse ainda integrar a nossa selecção. Penso ter conseguido esses objectivos e valeu a pena o esforço e o empenho envolvidos, pena é que a Direcção da FPX não queira reconhecer tal mérito, pois ao contrário de todas as outras, o título de Campeão Nacional sempre foi “sagrado” no que respeita à selecção nacional.
Desportivamente, além de ser privado de lutar por outra medalha olímpica e apesar de ter um longo curriculum desportivo, tenho também por objectivo lutar por um recorde mundial. O qual consiste no facto de poder vir a tornar-me o xadrezista em todo o mundo com maior número de representações olímpicas. Por exemplo o Korchnoi participou em 16 olimpíadas, eu participei até ao momento em 14.
Como esperas ser ressarcido?
Em tempo oportuno o meu advogado prestará todas as informações que forem relevantes serem divulgadas publicamente.
Porque envolveste a comunicação social, contactando a LUSA?
Porque foi a única forma que encontrei de se poder divulgar tamanhas atrocidades cometidas por alguém que persiste em não corrigir os seus erros, perante o cepticismo de alguns e as dúvidas de outros, perante uma modalidade que eu decidi em miúdo praticar durante toda a vida, perante o meu país e acima de tudo para repor a verdade desportiva.
Qual o apoio que recebeste do teu clube [AX Gaia] e da tua Associação [AX Porto]?
Gostaria de não comentar no preciso momento tais atitudes, talvez num futuro próximo.
E da Associação de Mestres [APMX]?
A APMX, pelo menos fez aquilo que a própria Direcção não quis fazer, se não vejamos: A APMX promoveu um debate interno, aberto à opinião de todos aqueles que, sendo membros, pretendessem intervir, de forma a adoptar uma posição coerente com a actual situação. Por outro lado a Direcção da FPX pretendeu fechar as portas às suas associações, através de uma simples frase do seu Presidente que disse; «… a decisão tomada é válida e irreversível», bem como através de elementos da própria Direcção, com interesses comuns em organismos associativos, emitiram opiniões em nome destes últimos, defendendo simultaneamente a própria Direcção da FPX, pretendendo, dessa forma, deixar transparecer perante as demais associações de que tudo foi bem feito.
E os membros que compõem a selecção nacional absoluta?
Fiquei bastante surpreendido não só com alguns desses elementos, como também de outras pessoas, as quais, com benefícios próprios directa ou indirectamente segundo determinada decisão. Uns preferiram não emitir qualquer comentário, possivelmente com o receio de algumas represálias perante acordos previamente estipulados conjuntamente com a Direcção da FPX, outros emitiram determinadas afirmações, parecendo telecomandados, das mais descabidas possíveis.
Mas, felizmente que nem todos pensam assim e o GM Luís Galego, ensinou a muito boa gente que afinal nem todos são semelhantes na sua maneira de estar, mostrando como ele bem sabe jogar dentro do tabuleiro e também fora dele. É que para algumas destas pessoas, como é o caso, é mais importante defender os seus princípios e valores éticos do que algum benefício material que advenha porventura de uma determinada tomada de posição irreflectida ou propositada, pisando tudo e todos não olhando a quem.
E a feminina?
Relativamente à selecção feminina, tomei conhecimento de que a jogadora Bianca Jeremias efectuou um protesto, logo após a conclusão do Campeonato Nacional Feminino, que fez chegar à Direcção da FPX, mas que até agora o mesmo não teve qualquer resposta. Por outro lado, fui informado através de um comunicado de três das jogadoras da selecção de que as mesmas haviam informado a Direcção da FPX através de um abaixo assinado em forma de protesto, no qual manifestavam a sua total discordância e desagrado pela forma como foi definida a 5ª jogadora da selecção.
O MI Joaquim Durão [nomeado capitão da selecção nacional absoluta pelo Presidente da FPX] encontra-se ao corrente da situação? O que é que ele pensa disto tudo?
Sim claro. O Sr. Joaquim Durão como sabes, já foi por diversas vezes Presidente da FPX e foi também por inúmeras vezes “olímpico” como jogador, capitão e delegado ao Congresso da FIDE. É uma pessoa bastante experiente e muito bem informada no que concerne aos meandros da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), tendo sido, inclusive, Vice-Presidente da FIDE.
O que ele me disse foi que isto, e cito de memória, é uma situação extremamente lamentável e desnecessária, e que pela primeira vez na história do xadrez em Portugal, o facto do Campeão Nacional não ser convocado para integrar a selecção nacional é inédito e inaceitável. Ele não concorda em absoluto com a decisão da Direcção da FPX. Podes confirmá-lo.
Já falou contigo?
Sobre este tema, sim várias vezes. Disse-me que tinha todo o seu apoio, explicando-me que havia sido contactado pelo Presidente da FPX, o Sr. António Bravo, com quem se reuniu e lhe explicou a sua total discordância perante a actual situação, dizendo-lhe, inclusive, que não concordava com esta atitude e com a não inclusão na selecção do actual campeão nacional. A mesma explicação foi também transmitida, após ter sido contactado em conversa telefónica ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral da FPX, o Sr. Fernando Castro.
Estás de acordo com a afirmação proferida pelo Presidente da FPX no jornal Record, na qual considera que a selecção nacional, não sai lesada com a referida convocatória, uma vez que os valores são semelhantes?
Bem reconheço que fazia uma ideia completamente errada da competência técnica desse senhor. Só uma pessoa que não perceba nada da modalidade ou que tenha estado afastado da mesma há mais de 40 anos, poderá fazer uma afirmação sem sentido como essa.
Retirar-se de uma selecção o campeão nacional e o melhor português com rating internacional, colocando em seu lugar qualquer outro xadrezista que nunca conseguiu sequer ser campeão nacional e dizer que a selecção não foi lesada porque os valores são semelhantes, no mínimo, só pode ser uma afirmação muito infeliz.
© Ala de Rei (2008). Autorizada a reprodução desde que citada a fonte.