O jogo de xadrez é adotado como conteúdo nas escolas e auxilia no aprendizado das outras disciplinas
Os olhos estão fixos num mesmo ponto. A cada lance, o grupo adversário se reúne e pensa na melhor solução para a próxima jogada. Concentração, silêncio e atenção redobrada são essenciais nesta partida de xadrez gigante. A atividade é monitorada por um professor e ocorre dentro de uma escola. “Quero ser a dama”, gritam dois alunos interessados em se transformar na peça mais forte do jogo.
![Alunos do Colégio Bom Jesus Nossa Senhora de Lourdes, em Curitiba [© Gazeta do Povo/António Costa]](http://portal.rpc.com.br/midia/tn_620_600_xadrez_colegio_Bom_Jesus_Nossa_Senhora_de_Lourdes.jpg)
Gigante ou do tamanho tradicional, jogar xadrez faz parte da atividade extra do Colégio Bom Jesus Nossa Senhora de Lourdes, em Curitiba. O xadrez também aparece integrado ao currículo de Educação Física em grande parte dos colégios no Paraná, da rede pública e privada.
Ferramenta
Até a metade de 2010, um conteúdo específico sobre o jogo irá integrar o livro didático público para o ensino fundamental da rede pública estadual. O livro existe para os estudantes do ensino médio do Paraná como material de apoio aos livros didáticos enviados pelo Ministério da Educação. É produzido por professores da própria rede estadual.
O autor do conteúdo de xadrez, Osni Zioli, professor de Educação Física em Pato Branco, no Sudoeste do estado, ressalta que o uso do xadrez nas escolas vai além do desenvolvimento cognitivo das crianças. Relacionar a história do jogo com temáticas sociais, momentos históricos e questões de gênero. «A contextualização dá vida ao xadrez», afirma.
Um dos exemplos usados pelo professor é a questão de gênero que está por trás da dama, a mais forte do jogo. Segundo Zioli, até a Europa renascentista, o nome dado à peça era conselheiro do rei. «Depois que foi mudado, a própria regra do xadrez foi alterada por questões religiosas. Antes, o jogador que chegasse com um peão no fim do tabuleiro tinha o direito de pegar um ou mais conselheiros. Depois, só podia escolher a dama uma vez», explica.
Alunos reconhecem benefícios
Crianças e adolescentes que praticam xadrez na escola há algum tempo reconhecem os benefícios do jogo para o aprendizado. Para o estudante da 4.ª série Lucas Nacif Giacomin, 10 anos, adquirir paciência foi um dos principais ganhos. Lucas recebe aulas do jogo desde os 5 anos de idade. «Falo muito e sou muito agitado. O xadrez me ajudou a prestar mais atenção e fazer as coisas com mais calma», diz.
A concentração ficou melhor na opinião do estudante do 3.º ano George William Lokang, 8 anos. «É um jogo que tem de usar muito a inteligência», diz. Para Pedro Paulo Leal de Medeiros, 12 anos, campeão de xadrez em seu nível no Colégio Dom Bosco, o grande benefício é a melhoria na capacidade de concentração. «Consegui prestar mais atenção nas aulas», diz. Pedro Paulo está na 6.ª série e tem aulas de xadrez desde os 7 anos de idade. Para a coordenadora de Educação Física do Dom Bosco, Rachel Fontoura dos Santos Lima, um dos principais benefícios da prática do xadrez é ensinar a lidar com o fracasso ou sucesso. «É preciso ter um plano estratégico. Quem observa melhor o jogo e tem uma visão do todo, se sai melhor», afirma. (TD) (…)
Nas 175 escolas da rede pública municipal de Curitiba e nas 2,1 mil escolas da rede pública estadual do Paraná, o xadrez faz parte do conteúdo de Educação Física. O mesmo ocorre nos colégios Dom Bosco. Nos colégios Bom Jesus pode aparecer como atividade extra ou integrado ao currículo, dependendo da sede. Já nas escolas Positivo, o conteúdo aparece nas aulas de Educação Física até o 3.º ano do ensino fundamental. Depois é oferecido como atividade extra e gratuita.
Incluir o jogo de tabuleiro mais antigo do mundo como ferramenta pedagógica traz inúmeros benefícios às crianças, ressaltam os educadores. O principal ganho é cognitivo. Ajuda no desenvolvimento de capacidades como memorização, concentração, raciocínio e lógica.
Para a diretora do ensino fundamental da rede municipal de educação de Curitiba, Nara Luz Salamunes, uma das vantagens é a participação em campeonatos. «A criança se vê em situação permanente de desafio, pois precisa desenvolver diferentes estratégias. Sem contar que é algo que dá prazer», afirma.
Na opinião do professor de xadrez do Bom Jesus Nossa Senhora de Lourdes, Fábio Corrêa Volpe, o jogo também auxilia a desenvolver organização e responsabilidade. «O xadrez nos ensina que não adianta só pensar naquele momento, mas na consequência que o movimento escolhido trará depois. É assim na vida», ressalta.
Um melhor desenvolvimento do raciocínio lógico e matemático é a aposta das escolas Positivo para investir na prática do xadrez desde o 1.º ano do ensino fundamental, segundo o supervisor de Cultura e Esportes Zair Cândido Netto. «Tem também a questão cognitiva, mas o objetivo principal é fomentar a Matemática», diz.
Já na rede municipal de ensino de Curitiba, a aposta é no ganho que o xadrez traz por si só. «Não aliamos a uma área do conhecimento específica», ressalta Nara. Um projeto específico é oferecido aos alunos interessados no contraturno escolar. São 78 escolas municipais que oferecem o xadrez fora do horário normal de aula.
Lido em Gazeta do Povo.