Caro Miguel Pires,
Antes do mais agradeço-lhe o email que teve a amabilidade de me enviar, não obstante, não ter tido oportunidade de o fazer mais cedo.
Não tenho o prazer de o conhecer pessoalmente, mas oportunidade, por certo, não faltarão.
Tal como o Miguel, também eu, me encontro preocupado com o estado do xadrez em Portugal, a nível federativo, associativo e não só. Como vê, não é, como eu não sou, o único. Preocupados com a situação actual seremos muitos. Com a vontade de a mudar é que já somos menos. E, com vontade de mudar verdadeiramente já somos muitos menos.
Não tenho, de momento, a oportunidade requerida para lhe poder responder com rigor e seriedade, às questões que levanta, pelo menos, por agora. Não creio ser o momento oportuno. Apelo, por isso, à sua compreensão.
Creio, contudo, que é sempre importante debater ideias e propostas para, com vontade e seriedade, ultrapassar os diagnósticos por mais negativos que se revelem e a realidade por mais sombria que se apresente.
Se me permite uma pequena observação, as questões que levanta são, de facto, importantes mas estão longe de constituírem as questões principais ou mais relevantes com que o xadrez actualmente se debate.
Refiro-me, em concreto, ao dirigismo que nos governa. Refiro-me, em primeiro lugar, ao pensamento dominante e, de seguida, às pessoas que o protagonizam, em especial, quando reiteradamente se opõem à mudança.
Como poderá facilmente compreender, não basta mudar as pessoas, pelo menos, no xadrez actual, já não basta. É preciso ir mais longe, nos métodos e nas práticas.
Não podemos ser cândidos, porque a máquina se encarregará de triturar todos os que se lhe oponham. Faço-me entender?
Permita-me um aparte, isto é, uma sugestão de leitura, onde poderá compreender boa parte das ideias que venho defendendo: a conferência do Prof. Olímpio Bento, docente universitário de C. Desp. Ed. Física, da Univ. Porto, deu em Gaia, há meia dúzia de anos, intitulada Do Prazo de Validade no Sistema Desportivo Português, em que publiquei na Ala de Rei alguns excertos bem elucidativos que venho afirmando. Outro documento bem interessante encontrará em Teses para Alterar o Xadrez Nacional que escrevi há algum tempo.
Não discutir as “questões de fundo” é andar entretido a discutir o sexo dos anjos, tal qual aqueles dirigentes bizantinos do passado.
Cada um é livre de discutir o que entender de melhor para a nossa modalidade, mas depois não se queixe de estar a falar para o tabuleiro quando ele há muito que já não tem peças – a partida está a disputar-se noutra sala!
O que não deixa de ser estranho é que não se considere estranho isto: em vez de inquirir as causas e a fonte dos problemas da modalidade – que estão na forma como a FPX está organizada e a funcionar e a ser dirigida há anos – e se opte por atacar quem criticamente aborda e comenta o estado da modalidade e aponta exemplos de irregularidades e ilegalidades que se encontram, note bem, à frente do nariz de cada um. Tem havido no xadrez recente uma espécie de caça ao homem, esteja ele onde estiver, em especial quando escreve num blogue. (não estou a falar a penas de mim). A preocupação primeira não é o conteúdo da situação descrita e denunciada publicamente, mas o artista que ousou pôr cá fora a informação. Vai um exemplo muito elucidativo disto?
A FPX pela pena dos seus dirigentes estava mais preocupada em saber quem era o autor de um email que recebi do que em apurar responsabilidades e punir as infracções a existirem!
Vai um segundo exemplo bem elucidativo disto? Toda a gente sabe que a legalidade não é uma palavra e uma prática muito apreciada para os lados da Rua Francisco Foreiro, e, no entanto, é com uma periodicidade alarmante que se toma conhecimento das reiteradas ilegalidades dos órgãos federativos.
Atente-se apenas o que já aconteceu em pouco de 2 anos – caso GCO/SIR Elvas; caso Olimpíadas de Xadrez em Dresden 2008, este então é um mix com seleccionador nacional, uma capitã de equipa feminina, uma chefe da delegação, um campeão nacional absoluto; o processo eleitoral em curso que acumulou protestos todos resolvidos ilegalmente em duas penadas; e outros episódios com menor visibilidade.
Uma Federação detentora do estatuto de Utilidade Pública Desportiva que vive, no essencial, à custa do erário público, vive como se o dinheiro lhe caísse do céu. Se fosse uma empresa já tinha fechado as portas há anos, porque os bancos já tinham ficado com as chaves. Leiam-se a este propósito os relatórios do Presidente do Conselho Fiscal e do Revisor Oficial de Contas.
Alguém se preocupa em mudar de estilo de vida?
Quando em vez de discutir se ataca e vilipendia o comentário crítico no seio da família do xadrez, como alguns gostam de referir, o que se espera de quem já perdeu ou nunca teve o «amor pelos xadrez»? numa frase bem expressiva que João Cordovil há cerca de 40 anos!
Gostaria de lhe escrever de forma diferente mas, em face do que presencio e do que tenho conhecimento, mas era possível fazê-lo de forma diferente.
Para meu e, possivelmente, também para si, desencanto.
Aceite os meus melhores cumprimentos.
Francisco Vieira
PS- Uma vez que este texto tem importância para ser publicado, tomei a liberdade de lhe escrever em forma de Carta Aberta, o que relevará.
Carta Aberta a Miguel Pires
Novembro 6th, 2009 Posted in FPX
Nov, 06 2009
Caro Miguel Pires,




Caro Francisco Vieira,
Em primeiro lugar espanta-me uma carta aberta a mim, agradeço o “relevo” que me deu, mas não era preciso tanto.
Com certeza teremos oportunidade de nos conhecermos algum dia.
Passando ao tema em questão tentarei responder ao que me parece que gostaria que me pronuncia-se.
Passando directamente a estes pontos:
“Se me permite uma pequena observação, as questões que levanta são, de facto, importantes mas estão longe de constituírem as questões principais ou mais relevantes com que o xadrez actualmente se debate.
Refiro-me, em concreto, ao dirigismo que nos governa. Refiro-me, em primeiro lugar, ao pensamento dominante e, de seguida, às pessoas que o protagonizam, em especial, quando reiteradamente se opõem à mudança.
Como poderá facilmente compreender, não basta mudar as pessoas, pelo menos, no xadrez actual, já não basta. É preciso ir mais longe, nos métodos e nas práticas.
Não podemos ser cândidos, porque a máquina se encarregará de triturar todos os que se lhe oponham. Faço-me entender?
Meu caro, se leu atentamente o que escrevi (tanto neste ultimo post no blog do Paulo Vale, como em outros que já passaram para segundo plano, mas que aconselho a leitura), perceberá que, para se resolver, por exemplo o problema do passivo é imperativo uma mudança nas politicas da federação, abandonando o pseudo pensamento dominante. Como de certo entenderá para se negociar seja com quem for, nos dias de hoje, temos que pelo menos ter 2 aspectos a nosso favor:
- Ser credíveis
- Ter um projecto credível
Desculpe a franqueza, mas neste momento a FPX não demonstra ter um projecto credível para a modalidade, basta ver o alheamento dos praticantes, logo dificilmente alguém apoiará seja o que for.
Ora, se para se resolver o principal problema (para mim) que é a asfixia financeira, necessita a FPX no mínimo daqueles requisitos, não se depreende dai que a FPX tem que virar 180º?
Passando para este ponto:
“Cada um é livre de discutir o que entender de melhor para a nossa modalidade, mas depois não se queixe de estar a falar para o tabuleiro quando ele há muito que já não tem peças – a partida está a disputar-se noutra sala!”
Penso que está a dirigir mal a sua atenção, e permita-me, usando as suas próprias palavras, está a discutir o sexo dos anjos. Meu caro, neste momento o mal está feito, existe asfixia financeira, o que por conseguinte limita o investimento na modalidade, seja a nível dos campeonatos nacionais, seja a nível da formação, seja a nível de apoio associativo, seja em apoio a jovens promessas. SEM O QUE SE COMPRA OS MELOES NADA SE FAZ!!!
Considera a ma organização um problema de fundo, sim é, mas mais fundo que esse é a incapacidade financeira, a incapacidade de atrair investidores, ou seja, para se resolver o problema financeiro, sem recorrer aos associados, negociando com entidade publicas ou privados, precisa-se de um projecto credível, e de se ser credível. Para isso volto a dizer é necessário mudar 180º, para isso será preciso todos estarem a remar para o mesmo lado.
Em jeito de brincadeira disse, antes das eleições, que se cada um dos praticantes desse 40,00 a FPX pagava-se o passivo, da 4 € por mês, para quem fuma é menos um maço de tabaco, para as crianças é menos 2 ou3 “bolicaos” ou coisas do género. Agora pergunto eu, que projecto gostaria de ter?
Se os praticantes acreditarem nele, as entidades não acreditaram. Voltamos ao mesmo meu caro, CREDIBILIDADE do projecto da FPX. É nesse sentido que mandei o repto, em primeiro lugar foi aos delegados, que nada disseram, e depois ao praticantes.
Repare que continuo a falar da FPX e não das pessoas que vão para a AG e direcção.
Presumo eu que, se a maioria dos praticantes se unirem em torno de algo, eles terão que ceder a essa pressão, porque se não sujeitam-se a governar coisa nenhuma, percebe?
Meu caro, quanto a isto:
“O que não deixa de ser estranho é que não se considere estranho isto: em vez de inquirir as causas e a fonte dos problemas da modalidade – que estão na forma como a FPX está organizada e a funcionar e a ser dirigida há anos – e se opte por atacar quem criticamente aborda e comenta o estado da modalidade e aponta exemplos de irregularidades e ilegalidades que se encontram, note bem, à frente do nariz de cada um. Tem havido no xadrez recente uma espécie de caça ao homem, esteja ele onde estiver, em especial quando escreve num blogue. (não estou a falar a penas de mim). A preocupação primeira não é o conteúdo da situação descrita e denunciada publicamente, mas o artista que ousou pôr cá fora a informação. Vai um exemplo muito elucidativo disto?
A FPX pela pena dos seus dirigentes estava mais preocupada em saber quem era o autor de um email que recebi do que em apurar responsabilidades e punir as infracções a existirem!
Vai um segundo exemplo bem elucidativo disto? Toda a gente sabe que a legalidade não é uma palavra e uma prática muito apreciada para os lados da Rua Francisco Foreiro, e, no entanto, é com uma periodicidade alarmante que se toma conhecimento das reiteradas ilegalidades dos órgãos federativos.
Atente-se apenas o que já aconteceu em pouco de 2 anos – caso GCO/SIR Elvas; caso Olimpíadas de Xadrez em Dresden 2008, este então é um mix com seleccionador nacional, uma capitã de equipa feminina, uma chefe da delegação, um campeão nacional absoluto; o processo eleitoral em curso que acumulou protestos todos resolvidos ilegalmente em duas penadas; e outros episódios com menor visibilidade. ”
Mantenho a minha posição, se houver vontade de resolver o principal problema, que implica mudar a filosofia da FPX, isto deixara de acontecer, mas para isso, os interessados, que deviam ser os praticantes, tem que lutar por isso.
Quanto à caça ao homem, e coisas similares, não me ouviu dizer, pelo menos que eu tenha consciência, nada sobre estas coisas ou a apontar o dedo seja a quem for. Já foi feito, tem que se trabalhar para que isso não aconteça, e acho que já deixei algumas ideias sobre isso. E mais não digo…
Quanto a isto:
“Uma Federação detentora do estatuto de Utilidade Pública Desportiva que vive, no essencial, à custa do erário público, vive como se o dinheiro lhe caísse do céu. Se fosse uma empresa já tinha fechado as portas há anos, porque os bancos já tinham ficado com as chaves. Leiam-se a este propósito os relatórios do Presidente do Conselho Fiscal e do Revisor Oficial de Contas.
Alguém se preocupa em mudar de estilo de vida?”
Pelo menos eu alertei, tentei que discutissem o assunto, fiz com que pelo menos um dos eleitos reconhece-se publicamente que se não se resolver o problema financeiro, nada poderá singrar. Tentei que eles, os eleitos, falem-se, não o fizeram. Tentei que os interessados o fizessem, ainda espero…
Quanto há leitura aconselhada, oportunamente o tentarei fazer.
Por fim meu caro, pergunto-lhe, já que me deu a honra de uma carta aberta, o seguinte, que gostaria de ver respondido abertamente:
1º. Se concorda que sem resolver o passivo, seja de que forma for, nada que se tente implantar singrará?
2º Se concorda que, só com a união de todos os interessados na modalidade poderemos ter força para impor mudanças?
3º. Se concorda que neste momento mais vale discutir o futuro do que o passado?
4º. O porquê de uma carta aberta há minha pessoa?
Peço desculpa pela tamanho do texto, mas muito ficou ainda por dizer…
Cumprimentos
Miguel Pires
PS: Tomarei a liberdade, e julgo que não levará a mal, de copiar a sua carta aberta e a minha resposta para o Blog do Paulo Vale