Um dos factos que descobri quando comecei a aprender o meu
ofício de neurocirurgião foi que os operadores de melhor técnica eram capazes de fixar, em esboços muitas vezes de notável qualidade artística, o que tinham acabado de executar na sala de operações. Um dia notei também que eu próprio guardava, numa memória visual de extraordinária precisão e colorido, as sequências, mais importantes das intervenções praticadas alguns dias antes. Nós, cirurgiões, vivemos da imagem e ela como que habita em nós em confortável simbiose.
Existem decerto, como já tenho apontado, alguns aspectos comuns ao ofício das artes e à prática cirúrgica, embora esta não use material descartável nem crie beleza. De facto, em ambos se aperfeiçoa a técnica pelo ensino e treino persistentes. Miguel Ângelo dizia ao seu discípulo António Mini: «Desenha António, desenha António, desenha e não percas tempo». Ambas são mediadas por instrumentos cuja manipulação é, a pouco e pouco, absorvida na fluência do movimento e quando a técnica é bem dominada, o instrumento parece desaparecer-nos da mão, já não existe mais pincel ou bisturi, mas apenas a tela ou o material biológico (no meu caso o cérebro) em que trabalhamos. Há por isso em ambas as actividades uma inevitável marca humana, os traços de uma construção artesanal, que muitas correntes das artes plásticas contemporâneas tendem a eliminar, também elas dominadas pelas novas tecnologias da imagem.
O conceito de experimentação nas artes plásticas não deve causar surpresa. O grande paisagista inglês Constable dizia que a arte era também uma ciência, na medida em que investigava as leis da natureza. Assim, por exemplo, a pintura paisagística seria um ramo da filosofia natural (assim se chamava a ciência até meados do século XIX) e as pinturas meras experiências.
Curiosamente, à medida que se vai investigando os mecanismos que permitem ao nosso cérebro apreciar as diferentes modalidades de expressão plástica, um ramo das neurociências a que se tem chamado neuroestética, chega-se à conclusão de que os pintores, como afirma Zeki, descobrem, sem dar por isso, princípios básicos do funcionamento cerebral. Já Leonardo da Vinci notara que o emparelhamento cromático mais agradável era o que reunia cores opostas. Hoje sabemos que as nossas células cerebrais (neurónios) que são estimuladas pelo vermelho, são inibidas pelo verde e vice-versa, e a mesma relação existe entre o azul e o amarelo e o branco e o preto.
É claro que o sentido da visão e a apreciação plástica estão indissociavelmente ligados. Uma das funções do aparelho visual é seleccionar, de uma informação que é muito vasta e continuamente em mutação, as imagens que o nosso cérebro “requisita” como indispensáveis num dado momento. Igualmente, a representação pictórica obriga a “sacrificar uns milhares de verdades aparentes” escolhendo apenas “a verdade” da sua experiência visual própria. É por isso possível dizer que o artista plástico não mente, nem finge, como o poeta de Fernando Pessoa, embora Leonardo chamasse à poesia a pintura cega e à pintura a poesia muda.
Não há dúvida que a Natureza nos dotou de um extraordinário equipamento sensorial para a apreciação das artes visuais. De facto, somos capazes de distinguir 500 graus diferentes de luminosidade e discriminamos sete milhões de gradações de cor. É na porção mais posterior do nosso cérebro, no chamado lobo occipital, que reside a chamada área visual primária. Que é uma espécie de central de correio que vai distribuindo informação por, pelo menos, 32 centros diferentes que ocupam mais de metade da área do nosso córtex cerebral, a chamada “massa cinzenta” que contém os neurónios.
A especialização do sistema visual é fascinante. Assim. Há áreas que distinguem objectos, diferenças de luminosidade, movimento ou profundidade, e outras dedicadas especificamente ao reconhecimento da face humana, que para lá de cumprir funções elementares como o comer ou respirar, é um instrumento indispensável na nossa relação com os outros, pois permite distinguir amigo de inimigo e, muita infinita paleta de expressões, revelar os sentimentos mais variados e contraditórios. Alguém calculou que existem 180 sorrisos anatomicamente diferentes e a dificuldade de os exprimir na tela já fora notada há séculos por Alberti, o inventor da perspectiva, no seu tratado Della pittura (1436). É para mim fascinante o tratamento que Francis Bacon deu ao retrato do Papa Inocêncio X, de Velásquez, numa transmutação fantasmática de uma das faces mais admiravelmente cinzeladas da pintura de todos os tempos.
A pintura explora técnicas e perspectivas que simultaneamente põem em jogo sistemas paralelos de percepção visual, cor, superfície, forma ou, como sucede na arte cinética, movimento. O exemplo mais ilustrativo são as esculturas de Alexander Calder, os chamados “mobiles”, compostos de elementos reduzidos às formas mais elementares, pintados de vermelho, branco, negro ou cinzento, que limitam a estimulação visual à percepção “pura” do movimento.
Muitas obras de arte contemporâneas – recordo, por exemplo, os admiráveis monocromáticos de Ângelo de Sousa e a pintura mais complexa, mas com uma marcada componente de redundância, de Vieira da Silva – nasceram das tentativas dos artistas para reduzir a complexidade da forma ao essencial ou, se quisermos, à verdade elementar tal como o nosso cérebro a percebe. O exemplo mais significativo é sem dúvida a pintura de Mondrian, levada à extrema depuração de linhas horizontais e verticais.
O que os neurocientistas reconhecem é que, quando bem sucedida, a arte intensifica ou aprofunda os conteúdos emocional, perceptual e cognitivo de experiências que ocorrem em muitos outros contextos não estéticos, incluindo a própria vida quotidiana. Não é propósito da arte (mesmo da impropriamente chamada “figurativa”) o retrato ou a representação fiel da realidade, mas sim ampliá-la, transcendê-la ou até mesmo distorcê-la. Esta é também a forma que a arte encontrou para conhecer a verdade e criar beleza e, embora a distinção deste continue a iludir-nos, o conceito de beleza é ainda o valor estético mais seguro. Por seu lado, os neurocientistas continuam a busca incessante para lhe apreender o sentido e revelar a sua intimidade biológica. Mas não seria melhor preservar-lhe o mistério?
Nota: Este texto foi baseado em parte no meu ensaio “As Faces de Arcimboldo”, publicado no livro Memória de Nova Iorque e Outros Ensaios, Gradiva, 2002.
Artigo do Prof. Dr. João Lobo Antunes retirado da revista TerritórioArtes, 2008, editado pela Direcção Geral das Artes, Programa Território Artes.
ofício de neurocirurgião foi que os operadores de melhor técnica eram capazes de fixar, em esboços muitas vezes de notável qualidade artística, o que tinham acabado de executar na sala de operações. Um dia notei também que eu próprio guardava, numa memória visual de extraordinária precisão e colorido, as sequências, mais importantes das intervenções praticadas alguns dias antes. Nós, cirurgiões, vivemos da imagem e ela como que habita em nós em confortável simbiose.




Eu sou pedeagoga e sou apaixonada por Artes,visitei este blog gostei muito de como foi dito sobre a rte do nosso cerebro a capacidade que temos.
Parabéns seu trabalho é mara vilhoso.